terça-feira, 17 de novembro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
aprisionada
Encontro no ônibus uma amiga que, muito constrangida, me pede um favor inusitado. Aconteceu que na noite anterior tinha saído com um rapaz.
-Sim, e aí ?
Aí simplesmente deu tudo errado. O programa foi chato, o cara estava deprimido, toda aquela expectativa romântica foi por água abaixo e agora ela estava presa no vestido.
- Presa no vestido ? Como assim ?
Bem, é que dormira na casa de uma amiga, tinha chegado de madrugada, provavelmente bêbada, de manhã cedo a amiga dormia, ela teve que continuar com a mesma roupa e... agora finalmente voltava pra casa. Só que morava sozinha.
- E você está presa no vestido ?
É que ele tem um monte de botõezinhos nas costas, até em cima. Ela se vira um pouco pra mostrar.
- É, ser humano sozinho não alcança, mesmo.
Entendi, claro. É quando a gente inventa uma ooooutra realidade. A ideia era uma cena muito sensual em que o cara vai despindo a mulher lentamente, desabotoando um por um, aumentando a tensão do desejo. Aquela ardente noite dos sonhos, inesquecível.
Na realidade nua, já liberta da sua prisão, minha amiga caminha cansada com o vestido semi-aberto.
Mas em seguida se vira, falando alto que é pra todo mundo ouvir:
- Próxima vez, vou sair beijando logo de cara que é pelo menos pra garantir algum e não sair no prejuízo !
-Sim, e aí ?
Aí simplesmente deu tudo errado. O programa foi chato, o cara estava deprimido, toda aquela expectativa romântica foi por água abaixo e agora ela estava presa no vestido.
- Presa no vestido ? Como assim ?
Bem, é que dormira na casa de uma amiga, tinha chegado de madrugada, provavelmente bêbada, de manhã cedo a amiga dormia, ela teve que continuar com a mesma roupa e... agora finalmente voltava pra casa. Só que morava sozinha.
- E você está presa no vestido ?
É que ele tem um monte de botõezinhos nas costas, até em cima. Ela se vira um pouco pra mostrar.
- É, ser humano sozinho não alcança, mesmo.
Entendi, claro. É quando a gente inventa uma ooooutra realidade. A ideia era uma cena muito sensual em que o cara vai despindo a mulher lentamente, desabotoando um por um, aumentando a tensão do desejo. Aquela ardente noite dos sonhos, inesquecível.
Na realidade nua, já liberta da sua prisão, minha amiga caminha cansada com o vestido semi-aberto.
Mas em seguida se vira, falando alto que é pra todo mundo ouvir:
- Próxima vez, vou sair beijando logo de cara que é pelo menos pra garantir algum e não sair no prejuízo !
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nova leitura
faremos uma nova leitura da minha peça "Vida é o quê?" agora em novembro no dia 17, 3a.feira, às 21h no Bistrô das Casas Casadas (Espaço Rio Carioca). Rua Leite Leal, 45
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
sofá
Quando eles se mudaram pra casa nova, a mulher do Reginaldo inventou que queria um sofá de couro na sala.
-Mas couro de verdade, da vaca! Nada daquele plástico imitando, aquela coisa quente por baixo da perna.
-O que é que tem? Não é gostoso?
-Que, gostoso, o quê. Com esse calor que faz?
No início o Reginaldo desconversou. Fez que esqueceu. Mas virou, mexeu, ela voltava à carga. Ele argumentava, fazendo as contas da mudança:
-A gente não pode deixar pro ano que vem? Não dá pra por estofamento novo no sofá que a gente ganhou? Ainda tá inteirinho, é só trocar...
-Mas casa nova com sofá velho? Negativo. Depois, você também vai adorar, garanto.
É que ela tinha visto numa revista de decoração e depois, na casa da prima de uma amiga. Delícia de sofá, bem grande. Queria um enorme, pra poder deitar no fresquinho.
O marido falava do preço, do transporte, do espaço apertado. Mas ela não se dobrava. Ele enrolou o quanto pode, mas ela tanto insistiu que lá foi o Reginaldo pesquisar. Depois de visitar várias lojas, só confirmou o que já imaginava: o sofá saía mais caro que todos os armários embutidos. Nada feito.
-Ah, é? Então traz o sofá velho, pode trazer, que é nele que você vai dormir.
-Mas, como?
-Em mim você não toca. Então melhor dormir no sofá.
Não houve jeito. Quando chegou o sofá novo, enquanto a mulher pulava de alegria, Reginaldo parecia caminhar para o matadouro. Calculava as prestações.
Mas realmente, era lindo. Enoooorme. Podiam os dois deitar ali - e foi a primeira coisa que fizeram, depois de tanto tempo de abstinência. Valeu a pena, a satisfação da esposa o recompensou por muitas semanas.
Mudança feita, aos poucos é que foram sentindo o aperto na sala, o pouco espaço para os outros móveis, a dificuldade pra passar toda vez que queriam entrar ou sair. Com compras, então...
Mas o pior de tudo ficou mais visível quando convidaram amigos pela primeira vez: é que ela era baixinha, muito baixinha. Naquele sofá enoooorme, das duas, uma: ou ela encostava a coluna, ficando ridícula com as pernas esticadas e os pés sobre o couro, ou sentava na beirinha, pouco à vontade no esforço das costas eretas.
De alguma forma vingado, Reginaldo ria por dentro, observando pelo canto do olho a mulher sentada como uma boneca frente à TV. Ou como uma criança, que nunca deu o braço a torcer.
-Mas couro de verdade, da vaca! Nada daquele plástico imitando, aquela coisa quente por baixo da perna.
-O que é que tem? Não é gostoso?
-Que, gostoso, o quê. Com esse calor que faz?
No início o Reginaldo desconversou. Fez que esqueceu. Mas virou, mexeu, ela voltava à carga. Ele argumentava, fazendo as contas da mudança:
-A gente não pode deixar pro ano que vem? Não dá pra por estofamento novo no sofá que a gente ganhou? Ainda tá inteirinho, é só trocar...
-Mas casa nova com sofá velho? Negativo. Depois, você também vai adorar, garanto.
É que ela tinha visto numa revista de decoração e depois, na casa da prima de uma amiga. Delícia de sofá, bem grande. Queria um enorme, pra poder deitar no fresquinho.
O marido falava do preço, do transporte, do espaço apertado. Mas ela não se dobrava. Ele enrolou o quanto pode, mas ela tanto insistiu que lá foi o Reginaldo pesquisar. Depois de visitar várias lojas, só confirmou o que já imaginava: o sofá saía mais caro que todos os armários embutidos. Nada feito.
-Ah, é? Então traz o sofá velho, pode trazer, que é nele que você vai dormir.
-Mas, como?
-Em mim você não toca. Então melhor dormir no sofá.
Não houve jeito. Quando chegou o sofá novo, enquanto a mulher pulava de alegria, Reginaldo parecia caminhar para o matadouro. Calculava as prestações.
Mas realmente, era lindo. Enoooorme. Podiam os dois deitar ali - e foi a primeira coisa que fizeram, depois de tanto tempo de abstinência. Valeu a pena, a satisfação da esposa o recompensou por muitas semanas.
Mudança feita, aos poucos é que foram sentindo o aperto na sala, o pouco espaço para os outros móveis, a dificuldade pra passar toda vez que queriam entrar ou sair. Com compras, então...
Mas o pior de tudo ficou mais visível quando convidaram amigos pela primeira vez: é que ela era baixinha, muito baixinha. Naquele sofá enoooorme, das duas, uma: ou ela encostava a coluna, ficando ridícula com as pernas esticadas e os pés sobre o couro, ou sentava na beirinha, pouco à vontade no esforço das costas eretas.
De alguma forma vingado, Reginaldo ria por dentro, observando pelo canto do olho a mulher sentada como uma boneca frente à TV. Ou como uma criança, que nunca deu o braço a torcer.
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009
LEITURA de PEÇAS no Cosme Velho

O Casarão de Austregésilo de Athayde promove, às terças-feiras de setembro e outubro, a série Ciranda em Cena – rodas de leitura conduzidas por atores e autores teatrais.
O evento terá início às 20h30 e a entrada é franca.
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Cirandeiros em Cena
22/09 – Hamilton Vaz Pereira
29/09 – Sandra Bonadeus
06/10 – Lucília de Assis
20/10 – Veronica Diaz
27/10 – Roberto Athayde
.
.
Casarão de Austregésilo de Athayde
Rua Cosme Velho, nº 599
Telefone: 2265 3536
casaraoaa.blogspot.com
producao@clarasandroni.com.brRua Cosme Velho, nº 599
Telefone: 2265 3536
casaraoaa.blogspot.com
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mal dosado
Coitado do Timóteo. Mas também, quem mandou casar ? Agora a mulher quer voltar a trabalhar. Ele sofre como louco, não quer deixar. O pessoal bem que avisou, não era pra casar. Ah, mas o Timóteo apaixonou. Também não era pra apaixonar...
Hoje ele põe a culpa no Amarante. Não, não foi ele que apresentou os dois, mas diz que o amigo é que lhe pôs essa ideia na cabeça. Que ele, crente, e ainda por cima, da polícia, jamais pensaria em estar com uma delas, quanto mais conversar.
Quando a primeira esposa fugiu com outro, o Timóteo caiu em depressão profunda e nunca mais quis saber de mulher alguma. Bebia sozinho, desvairadamente, até o dia em que o Amarante o reconheceu na saída de uma birosca. Engrenaram no papo, as lembranças do tempo de ginásio, o jogo de bola, as meninas e tal. Vendo o outro meio macambúzio, Amarante sugere uma visita ao bordel. Apesar da negativa inicial, a insistência do amigo, a solidão e o seu atraso nessa área acabaram vencendo os pudores da religião e da profissão.
Já na mesinha do salão, enquanto Amarante se divertia com a falsa loura, o amigo tristonho e mudo deixava a morena em ponto morto, constrangida, até.
Ao descerem do quarto às gargalhadas, Amarante e a loura dão com a cara séria do Timóteo, que só quer sair dali o mais rápido possível.
- Mas o que é que houve ? A moça não...?
- Não, é que esse tipo de mulher...Depois isso de ter que pagar...
Ao que o Amarante responde, com todo o seu carinho paternal:
- Meu amigo, essas moças... elas são moças, também, você sabia ? São filhas e mães e irmãs, ora... Estão batalhando pela vida. Você tem que conversar com elas...
- Mas fazer amizade ?
- É, por que não ? Até pra poder se divertir...
E sugestivamente acrescentou:
- Ó, elas sempre me dão muito mais do que eu peço...Depois, não custa nada ser gentil...
Coitado do Timóteo. Ele ouviu. Obedeceu.
Semana seguinte lá está ele no bordel de papo com a mulata. E na outra semana, e depois, e no outro dia, e ... Pronto, lá vai o policial entrando acompanhado no cinema, e no parquinho, e na igreja.
Coitado. Mas também, quem mandou casar ? Agora a mulher não se aguenta em casa e quer voltar a trabalhar. Ele sofre como louco, imagina, policial com mulher na zona!
Ah, mas quem mandou ? Não era pra casar, era só pra conversar!
Hoje ele põe a culpa no Amarante. Não, não foi ele que apresentou os dois, mas diz que o amigo é que lhe pôs essa ideia na cabeça. Que ele, crente, e ainda por cima, da polícia, jamais pensaria em estar com uma delas, quanto mais conversar.
Quando a primeira esposa fugiu com outro, o Timóteo caiu em depressão profunda e nunca mais quis saber de mulher alguma. Bebia sozinho, desvairadamente, até o dia em que o Amarante o reconheceu na saída de uma birosca. Engrenaram no papo, as lembranças do tempo de ginásio, o jogo de bola, as meninas e tal. Vendo o outro meio macambúzio, Amarante sugere uma visita ao bordel. Apesar da negativa inicial, a insistência do amigo, a solidão e o seu atraso nessa área acabaram vencendo os pudores da religião e da profissão.
Já na mesinha do salão, enquanto Amarante se divertia com a falsa loura, o amigo tristonho e mudo deixava a morena em ponto morto, constrangida, até.
Ao descerem do quarto às gargalhadas, Amarante e a loura dão com a cara séria do Timóteo, que só quer sair dali o mais rápido possível.
- Mas o que é que houve ? A moça não...?
- Não, é que esse tipo de mulher...Depois isso de ter que pagar...
Ao que o Amarante responde, com todo o seu carinho paternal:
- Meu amigo, essas moças... elas são moças, também, você sabia ? São filhas e mães e irmãs, ora... Estão batalhando pela vida. Você tem que conversar com elas...
- Mas fazer amizade ?
- É, por que não ? Até pra poder se divertir...
E sugestivamente acrescentou:
- Ó, elas sempre me dão muito mais do que eu peço...Depois, não custa nada ser gentil...
Coitado do Timóteo. Ele ouviu. Obedeceu.
Semana seguinte lá está ele no bordel de papo com a mulata. E na outra semana, e depois, e no outro dia, e ... Pronto, lá vai o policial entrando acompanhado no cinema, e no parquinho, e na igreja.
Coitado. Mas também, quem mandou casar ? Agora a mulher não se aguenta em casa e quer voltar a trabalhar. Ele sofre como louco, imagina, policial com mulher na zona!
Ah, mas quem mandou ? Não era pra casar, era só pra conversar!
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