Sala da casa. Maria Teresa, de biquini, assiste TV deitada no sofá.
CARLOS (entra vindo da rua) Ufa, que calor!
TERESA Ahn-hã.
Maria Teresa se cobre instintivamente com uma almofada. Depois desiste e a tira de cima.
CARLOS (vai até a cozinha, pega um copo dágua) Nooossa, nós andamos quilômetros.
TERESA Que saco, hein?
CARLOS A mamãe é louca.
TERESA Que novidade.
CARLOS E não adiantou nada.
TERESA Sei.
CARLOS Sabe o quê? Por acaso já foi alguma vez num cartório? Já foi despejada de algum lugar?
TERESA Despejada ou não, eu nunca tive mesmo um lugar...
CARLOS Ai, coitadinha.
Carlos dá a volta no sofá e só então a vê realmente.
CARLOS Tá pelada?
TERESA Não, imbecil. Tô de biquini.
CARLOS Dando show aí pra vizinhança, é?
TERESA Ah, é. A gente podia pelo menos cobrar...(levanta-se rebolando, aproxima-se das janelas)
CARLOS (rindo) É, ia fazer o maior sucesso.
TERESA Você acha?
CARLOS (vai atrás dela) Eu ia virar o teu cafetão. Vem cá.
TERESA (desvia) E quem disse que eu ia precisar?
CARLOS (prensando-a contra a parede) Acho que você ia querer.
TERESA (safando-se) Acho que você tá muito convencido...
CARLOS (a puxa pelos cabelos) Deixa de ser exibida...
Os dois caem no sofá, embolados. Quase se beijam, mas são interrompidos pela entrada de Madalena num rompante.
MADALENA Que loucura! Uma fornalha! A gente tá vivendo no inferno, só pode ser...
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domingo, 28 de março de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
o apê do Cacau
então ele pegou a planta, abriu-a lentamente sobre a mesa e falou:
- Nós vamos ter de fazer algumas modificações, claro...
A coisa de 2 metros de distância, sentada sobre os caixotes da mudança com seus 95 quilos dentro de um tailheur lilás, Madalena apenas olhou de viés, acariciou o colar de pérolas e resolveu:
- Eu não vou morar numa kitinete, mas nem morta!
O Carlinhos sabia que não ia ser fácil:
- Tô tentando ajudar, não sabe como foi duro convencer o Cacau.
Faz sinal pedindo ajuda à irmã. Teresa respira fundo, aproxima-se da mesa como quem sobe o cadafalso e, seguindo o dedo do Carlinhos entre quadrados e retângulos, diz com falso entusiasmo:
- Mas é um quarto e sala, mãe, vê só!
- Nnnnão... Isso aí já é outra coisa, diz Carlinhos sem graça, abaixando o tom.
- Como? Tá aqui, ó. Não é uma sala, aqui?
- É. Do vizinho.
- Ah. Ué, a parede...
- Um pessoal muuuito legal, esticou o Carlinhos, espiando a mãe com o rabo de olho.
- Mas mora junto?
- Uma turma animada que só vendo. A mãe vai gostar.
A mãe resmunga:
- Quero ver me tirar dqui.
Teresa observa o papel estendido.
- Tem um rio? Isso aqui é um riachinho?
- É a rua, mesmo.
- Curva, assim?
- É ladeira.
- Ih... é o comentário que vem dos caixotes.
Mas Teresa é curiosa:
- A que sobre pra igrejinha?
- Não, pro outro lado.
- Ué. Mas do outro lado é morro.
A paciência do Carlinhos chegou no limite:
- Escuta aqui, alguém tem ideia melhor? Qualquer hora chega aqui o oficial de justiça, eu consegui a duras penas que o Cacau falasse com a tia dele, a mulher liberou pra gente ficar lá por um tempo, que o espaço é usado pra...
- Pra quê?
- Ah, não interessa. Agora vocês vão ficar de frescura só porque tem que caminhar mais um pouquinho?
- Carlinhos, esse apartamento... Teresa finalmente entende os muitos sinais de Carlinhos e, estarrecida, deixa a frase pela metade. Faz-se então um longo silêncio ensurdecedor. Carlinhos estava a ponto de desistir, já ia guardando a planta quando ouve um som vindo dos caixotes.
Eis que, secando o suor com um lencinho de cambraia, Madalena finalmente diz:
- Eu vou levantar...
Solícito, Carlinhos corre para ajudá-la:
- Vai aonde, mãe?
- Vou levantar o preço do colete a prova de balas.
- Nós vamos ter de fazer algumas modificações, claro...
A coisa de 2 metros de distância, sentada sobre os caixotes da mudança com seus 95 quilos dentro de um tailheur lilás, Madalena apenas olhou de viés, acariciou o colar de pérolas e resolveu:
- Eu não vou morar numa kitinete, mas nem morta!
O Carlinhos sabia que não ia ser fácil:
- Tô tentando ajudar, não sabe como foi duro convencer o Cacau.
Faz sinal pedindo ajuda à irmã. Teresa respira fundo, aproxima-se da mesa como quem sobe o cadafalso e, seguindo o dedo do Carlinhos entre quadrados e retângulos, diz com falso entusiasmo:
- Mas é um quarto e sala, mãe, vê só!
- Nnnnão... Isso aí já é outra coisa, diz Carlinhos sem graça, abaixando o tom.
- Como? Tá aqui, ó. Não é uma sala, aqui?
- É. Do vizinho.
- Ah. Ué, a parede...
- Um pessoal muuuito legal, esticou o Carlinhos, espiando a mãe com o rabo de olho.
- Mas mora junto?
- Uma turma animada que só vendo. A mãe vai gostar.
A mãe resmunga:
- Quero ver me tirar dqui.
Teresa observa o papel estendido.
- Tem um rio? Isso aqui é um riachinho?
- É a rua, mesmo.
- Curva, assim?
- É ladeira.
- Ih... é o comentário que vem dos caixotes.
Mas Teresa é curiosa:
- A que sobre pra igrejinha?
- Não, pro outro lado.
- Ué. Mas do outro lado é morro.
A paciência do Carlinhos chegou no limite:
- Escuta aqui, alguém tem ideia melhor? Qualquer hora chega aqui o oficial de justiça, eu consegui a duras penas que o Cacau falasse com a tia dele, a mulher liberou pra gente ficar lá por um tempo, que o espaço é usado pra...
- Pra quê?
- Ah, não interessa. Agora vocês vão ficar de frescura só porque tem que caminhar mais um pouquinho?
- Carlinhos, esse apartamento... Teresa finalmente entende os muitos sinais de Carlinhos e, estarrecida, deixa a frase pela metade. Faz-se então um longo silêncio ensurdecedor. Carlinhos estava a ponto de desistir, já ia guardando a planta quando ouve um som vindo dos caixotes.
Eis que, secando o suor com um lencinho de cambraia, Madalena finalmente diz:
- Eu vou levantar...
Solícito, Carlinhos corre para ajudá-la:
- Vai aonde, mãe?
- Vou levantar o preço do colete a prova de balas.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
duas águas
Separou, no lado A, as qualidades do genro que toda sogra gostaria de ter: simpático, embora sério, inteligente, culto e educado. Bom moço, profissional extremamente competente e responsável, dado seu caráter perfeccionista. Apesar de bastante tímido, corporalmente contido, é querido no trabalho, considerado por todos bom conselheiro, reconhecido como racional e prudente. O lado A, provavelmente um bom pai, cidadão diurno muito respeitoso e respeitado, é definitivamente apolíneo.
Já no outro lado... colocou tudo o que lhe dava realmente prazer: o lado B é alegre, divertido, beberrão. Completamente solto, ele dança e canta, aproveita a vida na onda das sensações. Com sua conversa inteligente e resvalosa, tiradas espertas e a libido à flor da pele, ele ganha intimidades sem pedir licença. Sedutor ousado e abusado, conquista toda noite uma mocinha diferente. O lado B, notívago e boêmio, certamente um péssimo companheiro, é totalmente dionisíaco.
O único problema é reunir as duas facetas. Sim, porque o lado A e lado B compartilham o mesmo corpo, coabitam o mesmo ser.
Como fazer?
A precisa de B, é sua válvula de escape, é preciso não explodir. B precisa de A, é seu centro, é preciso não se perder.
Então um faz verdadeiros malabarismos para sustentar o outro, e haja adrenalina para evitar os flagras: nunca fala o sobrenome e muito menos o endereço, não anda com celular nem dá seu número de telefone, anota o das mocinhas num papel ou, melhor ainda, anota o email. Combina o chopp com amigos e usa parte do horário para encontros, diz à namorada que não pode vê-la aquela noite porque terá que acordar cedo no dia seguinte, etc, etc. Armações, esquemas, mentiras necessárias para a dura vida de malabarista deste pobre rapaz.
Porque veja, ele se chama Moisés.
Moisés, o que separa as águas do Mar Vermelho, o que possibilita a libertação...
Pois pobre Moisés. Separou as águas da vida. Ficou para sempre aprisionado em sua divisão.
Já no outro lado... colocou tudo o que lhe dava realmente prazer: o lado B é alegre, divertido, beberrão. Completamente solto, ele dança e canta, aproveita a vida na onda das sensações. Com sua conversa inteligente e resvalosa, tiradas espertas e a libido à flor da pele, ele ganha intimidades sem pedir licença. Sedutor ousado e abusado, conquista toda noite uma mocinha diferente. O lado B, notívago e boêmio, certamente um péssimo companheiro, é totalmente dionisíaco.
O único problema é reunir as duas facetas. Sim, porque o lado A e lado B compartilham o mesmo corpo, coabitam o mesmo ser.
Como fazer?
A precisa de B, é sua válvula de escape, é preciso não explodir. B precisa de A, é seu centro, é preciso não se perder.
Então um faz verdadeiros malabarismos para sustentar o outro, e haja adrenalina para evitar os flagras: nunca fala o sobrenome e muito menos o endereço, não anda com celular nem dá seu número de telefone, anota o das mocinhas num papel ou, melhor ainda, anota o email. Combina o chopp com amigos e usa parte do horário para encontros, diz à namorada que não pode vê-la aquela noite porque terá que acordar cedo no dia seguinte, etc, etc. Armações, esquemas, mentiras necessárias para a dura vida de malabarista deste pobre rapaz.
Porque veja, ele se chama Moisés.
Moisés, o que separa as águas do Mar Vermelho, o que possibilita a libertação...
Pois pobre Moisés. Separou as águas da vida. Ficou para sempre aprisionado em sua divisão.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
quando fui vaca
Sempre que viajo, ou pro interior do estado ou pra Minas ou pra São Paulo, vejo as vacas pastando e sinto uma saudade! É, é que já fui uma delas. E é, que é de lá que me vem a raíz: é de fazenda, de mato, curral, cana de açúcar, cavalo, porco, galinha. E doce de goiaba e pamonha e curau, tudo feito em casa.
Naquele tempo gostava mais era de caminhar pela sombra. Se não tinha, o mais que fazia era mirar a primeira árvore maiorzinha, de copa generosa, e rumar direto pra ali. Que nunca fui de me esquentar. Que essa é que é a natureza do meu gado: pachorrenta. Briga, mesmo, só sendo por causa de cobra. E olhe lá, que não sendo cascavel ou do porte, e ainda se não tiver armada pro bote, a gente nem... Que passeie pelo mundo e passe, que só de pensar em discussão, o trabalho que dá, ihhh, já cansamos... e nem vale a pena. Não, por essas bandas ninguém se mexe pra isso.
Que a gente tá é na paz, de bem com a vida. E tá que come manga, e bebe água do ribeirão, e pasto à vontade. Quer mais o quê?
E aquela serenidade bovina que só a gente sabe ter, aquela calma de quem sabe que o tempo é infinito, indiferente a qualquer pressa.
Êta, vida boa demais. Sabedoria é isso, né não?
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Naquele tempo gostava mais era de caminhar pela sombra. Se não tinha, o mais que fazia era mirar a primeira árvore maiorzinha, de copa generosa, e rumar direto pra ali. Que nunca fui de me esquentar. Que essa é que é a natureza do meu gado: pachorrenta. Briga, mesmo, só sendo por causa de cobra. E olhe lá, que não sendo cascavel ou do porte, e ainda se não tiver armada pro bote, a gente nem... Que passeie pelo mundo e passe, que só de pensar em discussão, o trabalho que dá, ihhh, já cansamos... e nem vale a pena. Não, por essas bandas ninguém se mexe pra isso.
Que a gente tá é na paz, de bem com a vida. E tá que come manga, e bebe água do ribeirão, e pasto à vontade. Quer mais o quê?
E aquela serenidade bovina que só a gente sabe ter, aquela calma de quem sabe que o tempo é infinito, indiferente a qualquer pressa.
Êta, vida boa demais. Sabedoria é isso, né não?
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
pera, uva, maçã...
Era logo cedo que a solteirona intacta, invicta, entrava no hortifruti. Passeava por entre as gôndolas de frutas e legumes, demorava bem uns quarenta minutos, uma hora, e saía levando, no máximo, um ou dois produtos. Às vezes, mesmo depois de todo aquele tempo, saía de mãos abanando. Mas no dia seguinte, mal as portas da loja se abriam, lá estava ela. Intrigado, o segurança conversou com as moças do caixa. É, todas reparavam, mas qual era o problema? "Deve ser pesquisa de preço". "Tem velhinha que vai a 3 supermercados por dia para aproveitar as diferentes ofertas de cada um. Acontece de pesquisar em todos a carne, por exemplo, e depois voltar ao primeiro para fazer a compra. Ou achar caro e não comprar em nenhum".
O guarda não ficou lá muito convencido. Alguma coisa na cara dela o fazia suspeitar de estranhas intenções.
Depois de umas semanas de presença quase diária – com chuva, não – ele pediu o apoio de um colega na entrada e seguiu discretamente a mulher em seu passeio pela loja. Foi logo surpreendido pela reação dela ao ver que já havia morangos. Ela abriu um largo sorriso e quase gritou de felicidade: “Mas já?” Correu para eles, pegou um punhado e cheirou, cheirou, aproximou-os do rosto, quase se lambuzou com eles. Mas então os devolveu, suspirou e ficou de levinho, acariciando. Em seguida avançou para as ameixas. Pegou uma, fazendo-lhe o contorno, passando-a lentamente de uma mão para a outra, com uma sensualidade que perturbou o segurança. As tangerinas ela fazia passear em torno da boca. E cheirava, a respiração ampla, as narinas abertas como animal, como uma égua. Os limões discretamente rolava pelo pescoço, massageando-se, deleitando-se, sempre cheirando. Quando ela achava que ninguém estava olhando, eram os pêssegos que rolava em torno dos seios. Só ele, o vigia, é que via. E boquiaberto, suava. E ansioso acompanhou a excursão por entre mangas e maçãs, uvas e melancias. E extasiado, hipnotizado, assistiu-a atacando os legumes. Das batatas às berinjelas e beterrabas, dos tomates aos pimentões, tudo ela cheirava, apalpava, deslizando pelo corpo, ombros, braços, cotovelos, pela barriga. Mas quando foi em direção aos pepinos e cenouras, quando ele a viu fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, percebeu que estava perdido. E no instante em que os lábios se abriram e seu sutil sorriso lateral se transformou em mudo gemido de prazer, ele gemeu por ela. Ou com ela.
Imediatamente desperta, a mulher correu, sumiu, desapareceu.
Ele enlouqueceu. Procurou em vão seus dados, foi pego remexendo nos arquivos da administração. Tentou explicar, pediu demissão, mas ficou um tempo rondando pela área.
Agora parece que foram vistos, juntos, de mãos dadas, fazendo a feira.
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O guarda não ficou lá muito convencido. Alguma coisa na cara dela o fazia suspeitar de estranhas intenções.
Depois de umas semanas de presença quase diária – com chuva, não – ele pediu o apoio de um colega na entrada e seguiu discretamente a mulher em seu passeio pela loja. Foi logo surpreendido pela reação dela ao ver que já havia morangos. Ela abriu um largo sorriso e quase gritou de felicidade: “Mas já?” Correu para eles, pegou um punhado e cheirou, cheirou, aproximou-os do rosto, quase se lambuzou com eles. Mas então os devolveu, suspirou e ficou de levinho, acariciando. Em seguida avançou para as ameixas. Pegou uma, fazendo-lhe o contorno, passando-a lentamente de uma mão para a outra, com uma sensualidade que perturbou o segurança. As tangerinas ela fazia passear em torno da boca. E cheirava, a respiração ampla, as narinas abertas como animal, como uma égua. Os limões discretamente rolava pelo pescoço, massageando-se, deleitando-se, sempre cheirando. Quando ela achava que ninguém estava olhando, eram os pêssegos que rolava em torno dos seios. Só ele, o vigia, é que via. E boquiaberto, suava. E ansioso acompanhou a excursão por entre mangas e maçãs, uvas e melancias. E extasiado, hipnotizado, assistiu-a atacando os legumes. Das batatas às berinjelas e beterrabas, dos tomates aos pimentões, tudo ela cheirava, apalpava, deslizando pelo corpo, ombros, braços, cotovelos, pela barriga. Mas quando foi em direção aos pepinos e cenouras, quando ele a viu fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, percebeu que estava perdido. E no instante em que os lábios se abriram e seu sutil sorriso lateral se transformou em mudo gemido de prazer, ele gemeu por ela. Ou com ela.
Imediatamente desperta, a mulher correu, sumiu, desapareceu.
Ele enlouqueceu. Procurou em vão seus dados, foi pego remexendo nos arquivos da administração. Tentou explicar, pediu demissão, mas ficou um tempo rondando pela área.
Agora parece que foram vistos, juntos, de mãos dadas, fazendo a feira.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
teste
agora fui judia sobrevivente de Auschwitz, perdi 3 filhos e um marido e por 15 minutos mergulhei na dor e revolvi história e memória dessa mulher, sentada exausta nos anos 70 no banco de uma praça em Paris.
êta vida louca... isso de ser atriz é vertente-vertigem, olha aí, a pessoa que se dilacera e quase chora logo sai, toda contente porque sofreu direitinho, e num instante já embarca no calor 40 graus desse Rio caótico e some na multidão.
entrar na pele dos outros e brincar de sofrer é muito doido, mas dá alegria quando a gente sai sobrevivente do outro lado. isso é sempre bom, de verdade ou não.
êta vida louca... isso de ser atriz é vertente-vertigem, olha aí, a pessoa que se dilacera e quase chora logo sai, toda contente porque sofreu direitinho, e num instante já embarca no calor 40 graus desse Rio caótico e some na multidão.
entrar na pele dos outros e brincar de sofrer é muito doido, mas dá alegria quando a gente sai sobrevivente do outro lado. isso é sempre bom, de verdade ou não.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
singela
Às vezes olho pra cima e vejo admirada esses verdadeiros excessos da presença divina: palmeiras altíssimas - sabe deus o que elas conversam com as nuvens! -, mangueiras frondosas, de troncos tão grossos que dariam 5 ou 6 de mim, jaqueiras enormes, carregadas de frutos.
Sei que sou baixinha. Talvez por isso, ou por ser lisinha, gostosa de tocar e acariciar – eu não tenho espinhos e não arranho ninguém, como tantas outras por aí - a garotada brinque tanto comigo. Eles sobem nos meus galhos, e eu deixo; penduram cordas e pneus que eu ajudo a balançar; comem meus frutos ou levam pra fazer doce. Às vezes sinto até o cheiro da panela em que uma parte de mim é transformada para integrar o mundo dos homens. Se tivesse voz, nesse momento juro que eu cantava. Que delícia, meu próprio cheiro, que prazer, suscitar o desejo e ser devorada com deleite! E à noite eu sonho, feliz, imaginando a alegria de homens, mulheres, crianças me repartindo, compartilhando a mais popular, a soberana sobremesa.
Às vezes tiro a sorte grande e me escolhem pra fazer piquenique. Minha sombra não é lá grandes coisas, confesso, mas eu me esforço juntando um pouco as folhas. É uma festa! Noutras vezes, são namorados que vêm se recostar, aos beijos, abraços e tudo o mais. Acolho, claro, discreta e com o maior prazer. Só é duro quando abusam da hospedagem e desenham em mim a canivete. Na hora, dá vontade de gritar: e depois, quando o amor passar? Depois vão embora e me deixam assim, ferida! Dá vontade de xingar!
Aí fico triste e olho prá baixo: a terra, as folhas caídas, os frutos perdidos... vá lá, foi por amor, tudo por amor... E se não gosto da cicatriz, ela ao menos me diz que o amor entre os homens algum dia existiu.
Quando às vezes olho pra cima e vejo as altas árvores, tão distantes, sorrio e agradeço a deus por ter me feito goiabeira. Acho que é uma grande vantagem isso de ser assim, pequena: é que acompanho os seres humanos bem de perto. Eles são do meu tamanho.
Sei que sou baixinha. Talvez por isso, ou por ser lisinha, gostosa de tocar e acariciar – eu não tenho espinhos e não arranho ninguém, como tantas outras por aí - a garotada brinque tanto comigo. Eles sobem nos meus galhos, e eu deixo; penduram cordas e pneus que eu ajudo a balançar; comem meus frutos ou levam pra fazer doce. Às vezes sinto até o cheiro da panela em que uma parte de mim é transformada para integrar o mundo dos homens. Se tivesse voz, nesse momento juro que eu cantava. Que delícia, meu próprio cheiro, que prazer, suscitar o desejo e ser devorada com deleite! E à noite eu sonho, feliz, imaginando a alegria de homens, mulheres, crianças me repartindo, compartilhando a mais popular, a soberana sobremesa.
Às vezes tiro a sorte grande e me escolhem pra fazer piquenique. Minha sombra não é lá grandes coisas, confesso, mas eu me esforço juntando um pouco as folhas. É uma festa! Noutras vezes, são namorados que vêm se recostar, aos beijos, abraços e tudo o mais. Acolho, claro, discreta e com o maior prazer. Só é duro quando abusam da hospedagem e desenham em mim a canivete. Na hora, dá vontade de gritar: e depois, quando o amor passar? Depois vão embora e me deixam assim, ferida! Dá vontade de xingar!
Aí fico triste e olho prá baixo: a terra, as folhas caídas, os frutos perdidos... vá lá, foi por amor, tudo por amor... E se não gosto da cicatriz, ela ao menos me diz que o amor entre os homens algum dia existiu.
Quando às vezes olho pra cima e vejo as altas árvores, tão distantes, sorrio e agradeço a deus por ter me feito goiabeira. Acho que é uma grande vantagem isso de ser assim, pequena: é que acompanho os seres humanos bem de perto. Eles são do meu tamanho.
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